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Crise econômica brasileira pode ter sido fabricada?

Crise econômica brasileira pode ter sido fabricada?

Que não se pense que os irreligiosos se preocupam apenas com questões morais, filosóficas e religiosas e a desmistificar as religiões. Não, antes de serem irreligiosos eles são também cidadãos brasileiros e livres-pensadores que observam e sentem o que acontece em nosso país nas áreas política, econômica, em questões ambientais e até em política internacional, mormente agora, no momento em que vemos a influência daninha da bancada evangélica no Congresso Nacional. Um presidente da Câmara evangélico, corrupto, que conta com o apoio integral da Frente Parlamentar Evangélica, a 3ª ou 4ª maior bancada do Congresso, influindo negativamente nos destinos políticos do país (como se já não bastassem as trapalhadas do PT e a corrupção institucionalizada).

Tendo isso em mente, resolvi reproduzir aqui a matéria de minha autoria, publicada no site "Temas Instigantes",  nesta mesma data, e que segue abaixo:

Crise econômica brasileira, “impeachment”  e medidas de ajuste fiscal para 2016 – uma análise inusitada

"Se a burguesia não gosta do governo – e no caso brasileiro tem todos os motivos para não gostar -, ela não investe.

Há uma expressão para isso, que não fui eu que inventei e já foi usada várias vezes: greve de investidores."

(Economista Paul Singer)

Causa-nos espanto e estranheza que o Brasil, a 8ª economia mundial (já foi a 6ª, em 2011), comece a despencar tão abruptamente no ranking das economias mundiais e se veja envolvido em tamanha crise econômica, sem que ninguém identifique ou reconheça as verdadeiras causas. Uma vez que se permite que a crise seja instalada e não se consegue debelá-la, isto revela incompetência e fraqueza ou, o que é pior, sujeição a chantagens econômicas internacionais. 

Fica evidente que os motivos apresentados pelo Governo não são os verdadeiros e que o ajuste fiscal proposto para corrigir a crise não é a solução. Mas se de fato é isso o que está correndo, quais são as verdadeiras causas? Não somos a Grécia, nosso país não está falido, possuímos grandes reservas internacionais (371,5 bilhões em outubro/2015, de acordo com o Banco Central), muito maiores do que as de países com o PIB maiores que o nosso. E essas reservas sequer chegaram a ser utilizadas, havendo recomendações do presidente do Banco Central para que não o sejam.

Nosso país vai economicamente mal, mas não está quebrado porque suas reservas cambiais estão (pasmem!) aumentando."É a corrupção", responderão os mais apressados, com preguiça de pensar e pesquisar. Mas a corrupção, isoladamente, por mais que condenável e perniciosa, não levaria o país à situação caótica em que está, se não existissem outras causas maiores atuando em conjunto.

 

Crise fabricada ou o Brasil caiu na armadilha econômica internacional?

Vamos analisar: oitava economia mundial; reservas internacionais de US$ 371,5 bilhões e crescendo (timidamente, mas crescendo); 250 bilhões de dólares em Títulos do Tesouro Americano (ativos facilmente convertíveis); não dependência, por enquanto, do FMI; grande produtor e exportador de commodities; maior exportador mundial de alimentos; força de trabalho(2014) de 107,4 milhões; maior biodiversidade do planeta; segunda maior economia do continente americano (atrás apenas dos Estados Unidos); IDH de 0,744, considerado bom; maior produtor mundial de nióbio (possui 98% das reservas mundiais deste valioso e estratégico minério, apesar de mal explorado) e, ainda assim, com um PIB beirando a zero?!!! O que está errado? Estariam o Banco Central do Brasil, o IBGE, o Governo, o Banco Mundial e o Word Factbook da CIA (nossas fontes de informações) mentindo para nós? Seria esta uma crise fabricada, como tantas que já ocorreram mundo afora?

É bem verdade que temos também os aspectos negativos da nossa política e da nossa economia, como a queda internacional nos preços das commodities (principalmente o petróleo), a valorização mundial do dólar, os escândalos políticos/econômicos, a corrupção interna desenfreada, o amadorismo, o mau planejamento de improviso e de curto prazo, a gastança pública, o excesso de ministérios com constantes troca-trocas de ministros (quase sempre despreparados), a falta de alinhamento político com grandes disputas internas, fatores esses que são invocados frequentemente como desculpa para a crise e que fazem a nossa economia parecer que vai decolar aqui, para desabar logo ali adiante, como num voo de galinha.

Mesmo assim, é preciso muita incompetência - e ela de fato existe - para quebrar um país como o Brasil, no curto prazo de 2,5 anos . Tem de haver uma outra explicação. E o argumento de que a coisa começou lá atrás não procede, exceto para a corrupção e roubalheira, que já são institucionalizadas. Tudo indica, então, que o Brasil foi vítima de uma armadilha econômica internacional, para exibir uma imagem de um país em crise, apesar de suas reservas cambiais de US$ 371,5 bilhões de dólares. A quem aproveita isso e por que jogaram o país nessa situação? 

Fuga de capital de investimento estrangeiro, queda na produção industrial, desemprego, queda na renda per capita, queda no PIB, aumento nas taxas de juros, crédito em recessão e estagnação da economia. O governo entra em desespero, instala-se o pânico e apela-se para a contabilidade criativa, as chamadas "pedaladas fiscais", para esconder a realidade. Mas as “pedaladas” foram descobertas e o rombo nas contas públicas apareceu. A seguir, propõem-se "medidas de ajuste fiscal" e simulação de cortes de nove ministérios como sendo a solução salvadora, a médio prazo. Soluções imediatistas e simplórias, que não levam em conta a macroeconomia e a astúcia dos investidores estrangeiros.

O momento é bom para comprar títulos do tesouro direto, por paradoxal que pareça, e o capital estrangeiro será cada vez mais necessário e bem-remunerado. Não seria este o resultado esperado e a armadilha em que caiu o Brasil, por pura incompetência e  excesso de amadorismo? Se assim for, o "ajuste fiscal" proposto pelo governo não vai funcionar, porque trará mais recessão, falta de crédito, paralisação da atividade industrial e desemprego. Aumentar impostos, taxas de juros, cortar empregos e restringir o crédito são soluções improvisadas imediatistas para fingir que estão atacando o problema.

Daqui por diante, vamos ver o que, sobre isso, tem a dizer o economista Paul Singer, em excelente entrevista que deu ao jornal Sul21. Segue a íntegra da entrevista:

 

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‘O ajuste fiscal está sendo um desastre para o país’

O ajuste fiscal, atualmente em curso no Brasil, está reduzindo a demanda interna, desaquecendo a economia e produzindo muitos desempregados, representando um desastre para o país. A avaliação é do economista Paul Singer,Secretário Nacional de Economia Solidária, que esteve em Porto Alegre no início da semana, participando de um debate na Assembleia Legislativa.

 

Em entrevista ao Sul21, 02-11-2015,Singer analisou o atual momento político do país e interpretou a guinada na política econômica do governo Dilma Rousseff como uma tentativa de “agradar a burguesia para ver se ela interrompe a greve de investidores” que puxou o freio da economia. O economista torce para que a estratégia funcione, mas adverte para o custo e os efeitos da mesma: “a cada ano produzimos menos e, agora, começamos a produzir muitos desempregados”.

Eis a entrevista.

Qual sua avaliação sobre a política de ajuste fiscal atualmente em curso no Brasil?

Quando a presidenta Dilma tomou posse para iniciar o seu segundo mandato, ela fez uma volta de 180 graus sem nenhuma explicação. Até onde eu percebo, os únicos que entenderam por que era preciso fazer o ajuste fiscal foram os banqueiros. Os banqueiros são os únicos que acham que o ajuste fiscal é fundamental. Esse ajuste fiscal está sendo um desastre para o país. A cada ano produzimos menos e, agora, começamos a produzir muitos desempregados. Sinceramente, eu esperava que houvesse ao menos no PT alguma discussão sobre o ajuste fiscal para ver que sentido tem isso e quais são as consequências.

Não é absolutamente verdade que nós estamos com um enorme rombo nas contas públicas. Isso é tudo invenção da imprensa mais reacionária. Não há rombo nenhum. Todos os países têm dívida pública, Estados Unidos, Inglaterra, Japão, China e assim por diante. Os governos precisam de dinheiro mais do que arrecadam e, assim, criam uma dívida pública pela qual eles pagam juros. Dívida pública não se paga. A dívida pública dos países que participaram das guerras mundiais não poderia ser paga nem em um século. Ela é enorme.

O ajuste fiscal só tem razão de ser para os banqueiros. Hoje, no Brasil, é um bom investimento você comprar o chamado tesouro direto. Você compra valores da dívida pública e ganha um certo juro, que é o juro da Selic. Para isso não é preciso fazer ajuste nenhum. Essa dívida pública pela qual já se paga é grande. Do jeito que as coisas estão, com a economia produzindo cada vez menos, não vai terminar de pagar nunca e não é para pagar mesmo.

Pelas manifestações da presidenta Dilma, eu deduzo que ela está querendo ver se faz a economia brasileira crescer. Sendo o Brasil um país capitalista, para que ele possa crescer é preciso que a burguesia faça investimentos. Se a burguesia não gosta do governo – e no caso brasileiro tem todos os motivos para não gostar -, ela não investe. Há uma expressão para isso, que não fui eu que inventei e já foi usada várias vezes: greve de investidores. É uma greve suicida. Imagine um fabricante ou um dono de uma cadeia de lojas que ganhou dinheiro, teve lucro e decidiu deixar esse dinheiro no banco, sem investir para ampliar sua atividade. Daqui a pouco entra alguém no mercado e tira a sua freguesia. A greve de investidores não pode demorar muito, pois acaba atingindo os próprios capitalistas.

Está ocorrendo hoje uma greve de investidores no Brasil?

Sim. Está ocorrendo desde que a Dilma assumiu o segundo mandato. Aliás, no primeiro mandato dela já não houve investimentos e o crescimento ficou na casa do 1% ao ano.

Alguns defensores da atual política econômica citam também mudanças no cenário internacional que teria se tornado mais adverso para o Brasil. Na sua opinião, essa associação é pertinente?

Para mim isso não faz nenhum sentido. O Brasil não tem dívida pública externa. Pelo contrário, temos bilhões de dólares no Fundo Monetário Internacional. A situação econômica mundial está ruim para os outros, não para nós. Qual é o problema para o Brasil? Se tivéssemos uma dívida como a Grécia e os credores estivessem exigindo pagamento, aí a história seria outra. Mas nós não temos. A nossa dívida é em reais e os portadores dessa dívida são cidadãos brasileiros.

A queda no preço de algumas commodities, como no caso do petróleo, não representa um problema para a economia brasileira?

Sim, mas não é um problema só para a economia brasileira e sim para todos os produtores de commodities no mundo. Nós tivemos um período onde os preços das commodities estavam em alta porque a China estava crescendo e comprando esses produtos feito louco. A China se tornou o principal parceiro comercial do Brasil e isso foi muito bom. Mas agora a China está crescendo muito menos, em torno de 7% ao ano. Chegou a crescer 11%. Mas 7% ainda é relativamente alto na atual situação mundial.

A nossa moeda se desvalorizou muito porque os nossos investidores, ao invés de aplicar dinheiro na nossa economia, compram dólares. Então, o dólar acaba se valorizando, mas isso é pura especulação. Na verdade, isso acaba favorecendo o Brasil pois, na medida em que o real vale um quinto de um dólar, nossos produtos ficam mais baratos. A indústria brasileira já está exportando um pouco mais do que exportava antes.

Eu sou economista, mas não sou especialista nisso. Mas, por tudo o que sei, um país que tem estocado algumas dezenas de bilhões de dólares no Fundo Monetário Internacional, tem qual problema no cenário externo exatamente? Nós temos um problema interno, que são um milhão e quatrocentos mil desempregados e a economia crescendo para trás. A cada ano estamos produzindo menos do que no ano anterior. Isso sim é um problema, mas não tem absolutamente nada a ver com a economia mundial, pelo menos até onde eu sei.

O senhor tem participado de algum debate ou conversa com integrantes do governo ou dentro do PT?

Não. No PT não se discute nada disso, infelizmente. Tenho falado sobre esse tema com jornalistas, nada mais do que isso. A minha posição não é única. Tem muita gente dizendo o que estou dizendo, mas fui um dos primeiros a dizer o que estou repetindo aqui.

A que atribui esse giro de 180 graus que mencionou a respeito da posição da presidenta Dilma?

Atribuo ao que ela própria diz e ela está sendo sincera. A presidente espera com essa política, que, na minha opinião, não é nada boa para a classe trabalhadora, agradar a burguesia para ver se ela passa a investir e interrompe a greve. A verdade é que a burguesia brasileira não gosta nem um pouco da Dilma, tanto assim que quer ver se consegue afastá-la com o impeachment. Ela foi um tanto agressiva no primeiro mandato. Não esqueçamos que ela baixou os juros dos bancos públicos para obrigar os bancos privados a cobrar menos. Os banqueiros não perdoam isso. Ela está procurando agora se redimir junto à classe dominante para ver se eles voltam a investir e a economia volte a crescer. Essa é, para mim, a lógica da atual política econômica.

Isso não é traição a nada. Se ela conseguisse fazer com que a burguesia brasileira voltasse a investir nós não teríamos nem a recessão nem o desemprego. O efeito disso que está sendo feito aparece em algumas entrevistas. Uma que me impressionou muito foi a do Klabin, um dos maiores fabricantes de papel do Brasil, publicada na Folha de S. Paulo. Ao ler essa entrevista, pensei: “Uai, a política dela está dando algum resultado”. Foi uma entrevista elogiosa a Dilma. Estou torcendo para que seja um sinal de que tudo vai melhorar.

Em 1980, a indústria representava cerca de 34% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Hoje, representa apenas cerca de 9%. Qual é, na sua opinião, o impacto desse processo de desindustrialização na economia brasileira?

Tenho a impressão de que falar em desindustrialização é um pouco exagerado. Agora, se você comparar a indústria com a agricultura o contraste é enorme. O Brasil é hoje o maior exportador de alimentos do mundo e o agronegócio ganha muita força econômica e política com isso. Já a indústria brasileira não é exportadora e está voltada fundamentalmente para o mercado interno. A política de ajuste fiscal certamente prejudica a indústria porque há menos demanda. O governo arrecada, em média, algo em torno de 37% do PIB. Se ele não gasta, e é isso que é o ajuste fiscal, isso é um desastre e resulta em recessão.

Estes 1,4 milhão de desempregados não foram de graça. Eu não posso nem achar ruim com os caras que mandaram embora. Se eu for um industrial, comerciante ou fazendeiro, seja o que for, se eu não conseguir vender o que meus trabalhadores produzem, o que vou fazer? Não terei como seguir pagando os salários deles. A indústria está sem mercado, é isso que está acontecendo. Agora, com o dólar alto, está exportando um pouco mais, mas ela não é uma grande exportadora.

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Fonte: Jornal Sul21 (http://www.sul21.com.br/jornal/o-ajuste-fiscal-esta-sendo-um-desastre-para-o-pais/ )

Fonte: Sul21, Instituto Humanitas Unisinos (http://www.ihu.unisinos.br/noticias/548540-o-ajuste-fiscal-esta-sendo-um-desastre-para-o-pais#.VjiXW9VWiKo.twitter)

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Aí está. Emitimos nossa opinião, como leigos, mas atentos observadores políticos, e expusemos os pontos de vista de um eminente economista sobre o mesmo assunto, que revelaram muitas concordâncias com a nossa maneira de ver os fatos. Serão só coincidências ou o quadro é esse mesmo? E agora, que acabaram de acatar o pedido de “impeachment” contra a presidente Dilma Roussef?. Será também mera coincidência que, no dia seguinte, o famoso “day after”, a bolsa brasileira teve alta de 3,26% e o dólar caiu, em 2,24%? A euforia da possibilidade de “impeachment” deixa bancos e investidores mais otimistas?

Se a tendência continuar e a resposta for sim, parece estar certo o economista Paul Singer. Que passe o tempo e opinem os nossos leitores!

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